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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Vegetariano: estilo de vida e consequências

ESTADO NUTRICIONAL E ESTILO DE VIDA DE VEGETARIANOS E ONÍVOROS 
Revista Brasileira de Epidemiologia


Rita de Cássia Moreira de Almeida Teixeira, Maria del Carmen Bisi Molina, Denise Sorio Flor, Eliana Zandonade, José Geraldo Mill

RESUMO

               Objetivo: Descrever e analisar o estado nutricional e aspectos do estilo de vida de vegetarianos e onívoros residentes na Grande Vitória/ES, na faixa etária de 35 a 64 anos de idade. 

               Material e métodos: Trata-se de estudo observacional híbrido de casos prevalentes com avaliação retrospectiva da exposição. Os grupos de expostos (134) e não expostos à dieta onívora típica ocidental (67) foram determinados no início da investigação. Foram coletados dados antropométricos, bioquímicos, de atividade física e alimentação através de questionário e 3 recordatórios de 24 horas e diagnosticados sobrepeso, Razão Cintura Quadril (RCQ) inadequada e hipercolesterolemia. Colesterol total e frações, triglicerídeos, ácido úrico, sódio e potássio urinários foram comparados entre os grupos, através do teste t de Student. Foi usado o teste qui-quadrado para comparar proporções, com a=0,05. 


                Resultados: Foram encontradas diferenças significativas em relação à ocupação. Duração da atividade física e tempo assistindo televisão e/ou utilizando computador foram maiores entre os onívoros. Os vegetarianos relataram práticas alimentares mais saudáveis e menor consumo de lipídios, proteínas e sódio. Os onívoros apresentaram maior risco de sobrepeso, RCQ inadequada e hipercolesterolemia (valores de P<0,0001). HDL-colesterol não foi diferente nos grupos.


                Conclusão: Os vegetarianos apresentaram perfil nutricional mais adequado e menor risco para os agravos crônicos estudados, apesar de pequena diferença no padrão de atividade física regular entre os grupos estudados.


Palavras-chave: Alimentação vegetariana. Obesidade. Atividade física. Estilo de vida.

INTRODUÇÃO

               As práticas alimentares dos diferentes grupos sociais são determinadas por diversos fatores que vão desde o acesso aos alimentos até as escolhas baseadas em crenças religiosas e valores culturais. Se, ao longo do tempo, as grandes mudanças econômicas e sociais marcaram profundamente o modo de vida da humanidade, com certeza influenciaram de forma muito importante estas práticas alimentares, principalmente após a revolução industrial.

               Diante do atual cenário, pode-se perceber que a alimentação é praticamente a mesma em quase todos os países ocidentais, salvaguardadas algumas características regionais que influem nas escolhas e no modo de se alimentar. As pessoas, de modo geral, consomem mais alimentos industrializados, semi-processados ou prontos para consumo em seus domicílios e, quando se alimentam fora de casa, as escolhas baseiam-se na praticidade e no paladar. Para Garcia, este comportamento alimentar é orientado pelas características do modo de vida urbano nestes países.

               Este tipo de alimentação, também denominada "alimentação ocidentalizada", é baseada em alimentos ricos em carboidratos simples, lipídios e proteínas de origem animal, sal e poucos alimentos in natura, como frutas e hortaliças. Estudo recente realizado pelo IBGE e Ministério da Saúde mostrou aumento da disponibilidade energética proveniente de lipídios e carboidratos simples e redução de carboidratos complexos. O mesmo estudo confirmou também tendência de aumento de excesso de peso nos homens e pequena redução entre as mulheres adultas de melhor nível socioeconômico.

               A despeito do aumento de excesso de peso em praticamente todos os países ocidentais industrializados, é fato que se relaciona com estas mudanças nos modos de vida, em particular as ocorridas na alimentação e na atividade física. Além disso, os agravos crônicos não transmissíveis relacionam-se de forma importante à dieta ocidentalizada, e as consequências deles decorrentes contribuem sobremaneira para a mortalidade precoce e aumento nos gastos de assistência à saúde.

               Por outro lado, tem suscitado atenção de estudiosos a relação entre alimentação e doenças em grupos específicos, como o dos vegetarianos, além de se estudar o efeito deste tipo de alimentação no controle de doenças crônicas, como no diabetes mellitus e nas doenças cardiovasculares. Se no passado o interesse era o de evidenciar os problemas causados pela deficiência de alguns nutrientes, hoje é evidente o interesse em se estudar os benefícios para a saúde de uma alimentação estritamente de origem vegetal ou parcialmente restrita nestes produtos, como no caso da dieta ovo-lacto-vegetariana. Em se tratando de benefícios, alguns estudos já demonstram que este tipo de dieta pode auxiliar no controle do diabete e prevenir as doenças cardiovasculares. Alguns estudos concluem que uma dieta com baixo teor de gorduras saturadas combinada com alimentos de origem vegetal e peixe está associada a um baixo risco de mortalidade cardiovascular.

               Segundo Sabaté, os avanços na pesquisa em nutrição estão mudando a compreensão dos estudiosos em relação à contribuição das dietas vegetarianas para a saúde e para o desenvolvimento de doenças. É sabido que dietas vegetarianas restritivas ou desequilibradas podem determinar deficiências nutricionais, particularmente nas situações de demanda metabólica aumentada, porém as dietas vegetarianas bem equilibradas podem prevenir estas possíveis deficiências nutricionais, bem como algumas doenças crônicas. Assim sendo, estes conhecimentos parecem ter resultado em um deslocamento do paradigma: as dietas vegetarianas estão mais associadas à saúde que à doença, contrastando com as dietas baseadas em elevado consumo de produtos de origem animal.

               Neste trabalho objetivou-se estudar o perfil nutricional e algumas características do estilo de vida e alimentação em vegetarianos e onívoros. Buscou-se, ainda, quantificar e comparar o risco para sobrepeso, obesidade central e hipercolesterolemia nos grupos.

MATERIAL E MÉTODOS

               Trata-se de um estudo observacional híbrido de casos prevalentes com avaliação retrospectiva da exposição. Os grupos de expostos e não expostos à dieta ocidentalizada foram determinados no início da investigação e considerado um tempo mínimo de exposição igual a 5 anos. Tanto as informações sobre a exposição no passado quanto os desfechos foram medidos após o início do estudo.

               Foram estudados dois grupos de indivíduos na faixa etária de 35 a 64 anos de idade, segundo o seu tipo de alimentação: onívora ou vegetariana (apenas com restrição de carnes vermelhas e brancas ou de todos os alimentos de origem animal, denominada vegan). Os indivíduos vegetarianos são provenientes de municípios da região da Grande Vitória e os onívoros são oriundos de amostra probabilística do município de Vitória, a partir do banco de dados do Projeto MONICA/Vitória. Para este estudo, foram considerados onívoros todos os indivíduos que responderam positivamente à pergunta relativa ao consumo de carne inserida no questionário sobre alimentação.

[...]

RESULTADOS

               Na Tabela 1 estão apresentadas as características demográficas dos grupos. Como pode ser observado, foi atingida a meta de formar grupos idênticos no que diz respeito à idade, sexo, classe socioeconômica e etnia. A média de idade dos grupos foi de, aproximadamente, 47(8,2) anos e a maioria dos participantes pertence às classes socioeconômicas B e C. Não foi encontrada diferença significativa em relação à escolaridade entre os grupos estudados.
 
               A Tabela 2 mostra dados relacionados à ocupação e atividade física. No grupo VEG foi encontrado maior percentual de indivíduos com ocupação definida. Apesar de não ter sido encontrada diferença quanto à freqüência de prática regular de atividade física, o tempo dedicado à atividade física foi maior no grupo ONI (ONI = 62±24 X VEG = 49±27 min, P = 0,037). Também foi maior neste grupo, o tempo gasto assistindo televisão e/ou utilizando computador (ONI = 167±119 X VEG = 102±118 min, P < 0,000). O tempo dedicado ao sono foi similar nos dois grupos (7±2 horas, P = 0,936) (dados não apresentados).


               O percentual de sobrepeso entre os ONI foi de 58,2%, sendo que cerca de 20% dos indivíduos deste grupo apresentaram IMC > 30 kg/m2. No grupo VEG, o percentual foi menor (25,4%) e não foi encontrado nenhum indivíduo com IMC acima ou igual a 30 kg/m2. O risco de sobrepeso foi maior entre os onívoros (RP = 2,4, X2 = 20,2, P<0,000), bem como obesidade abdominal (RP = 2,5, X2 = 12,5, P = 0,000) e hipercolesterolemia (RP = 3,4, X2 = 44,9, P < 0,000).

               A Tabela 3 mostra aspectos relacionados às práticas alimentares dos grupos. Os VEG usam mais sal à mesa, especialmente em saladas não temperadas. Entre os ONI, 26% nunca utilizam azeite de oliva e 27% o utilizam regularmente (dados não apresentados). Os ONI também consomem mais frequentemente refrigerantes, alimentos fritos e adoçantes artificiais. O tipo de óleo mais utilizado por ambos os grupos é o de soja, porém os VEG utilizam mais outros óleos como alternativa ao de soja. Também é semelhante o percentual de indivíduos nos dois grupos que utilizam açúcar branco para adoçar bebidas, porém em torno de 25% dos VEG consomem outros produtos como açúcar mascavo e mel, enquanto 37% dos ONI usam adoçantes artificiais como alternativa ao açúcar. Não foi encontrada diferença significativa entre os grupos quanto à realização de refeições no domicílio, como pôde ser observado em relação ao almoço que é a principal refeição na nossa cultura. O uso de suplementos é maior entre os vegetarianos que relataram fazer uso de suplementos como levedo de cerveja apenas. Cerca de 15% dos VEG e 32% dos ONI relataram consumir bebidas alcoólicas regularmente.
 
               Na Tabela 4 são apresentados os indicadores bioquímicos. Pode-se observar que praticamente todos os parâmetros avaliados são diferentes nos grupos estudados, com exceção da quantidade de potássio excretada na urina e do HDL-colesterol. O consumo estimado de sódio nos ONI é praticamente 25% maior que nos VEG. Vale a pena ressaltar que, apesar de significativas as diferenças encontradas nos grupos em relação ao hematócrito e à hemoglobina, não foram encontradas diferenças na prevalência de anemia. Nos dois grupos, a prevalência foi de 10%.
 
               A Tabela 5 mostra as medidas e os indicadores antropométricos e de consumo. Todas as variáveis antropométricas estudadas foram maiores no grupo dos ONI, com exceção da estatura. Não foi encontrada diferença na ingestão calórica, porém os percentuais de proteínas e lipídios na dieta dos ONI foram maiores que no grupo dos VEG. Os VEG relataram consumir maior quantidade de fibras e ferro.
 
               Calculamos o poder do teste associado ao tamanho da amostra para as principais variáveis do estudo (RCQ, sobrepeso, glicemia e hipercolesterolemia). O valor mínimo de poder encontrado foi de 89%.

DISCUSSÃO

               Estudos de coorte podem ser realizados em grupos especiais, como os que participaram desta pesquisa, visto à dificuldade de recrutamento de um grupo representativo de vegetarianos de um único município com as características demográficas e culturais de Vitória. Assim sendo, não foi possível formar um grupo de vegetarianos apenas da cidade de Vitória, não garantindo a priori formação de grupos comparáveis da mesma base populacional. Por se tratar de um grupo especial da população, é admitido que a seleção dos participantes seja feita segundo a situação de exposição, como foi a realizada nesta investigação. Neste caso, o grupo de vegetarianos foi formado a partir do recrutamento de indivíduos de quatro municípios da chamada região da Grande Vitória, sendo a maioria dos indivíduos procedente de Vitória (33) e de Vila Velha (20), totalizando 79% do grupo.

               Apesar da grande dificuldade de se encontrar pessoas adeptas ao vegetarianismo, foram pesquisadas 67 pessoas que não consumiram carne nos últimos cinco anos, premissa básica para a entrada no estudo. Esse tempo mínimo de 5 anos foi estabelecido na fase de planejamento do estudo, considerando que, quanto mais tempo de vegetarianismo, maior seria a probabilidade de repercussão desse tipo de dieta na saúde. No entanto, o tempo médio entre os participantes de nosso estudo foi de 19±10 anos, o que tornou possível o estudo do tipo coorte retrospectivo, pois, de acordo com nossa hipótese inicial, consideramos a "dieta ocidentalizada" típica como fator de exposição para as doenças crônicas não transmissíveis.

[...] 

               É notória a dificuldade em estimar consumo alimentar em estudos populacionais. Nesta pesquisa, a utilização do recordatório de 24 horas foi possível porque o protocolo previa pelo menos dois encontros com o participante, apesar de conhecidas as limitações do método. A principal limitação deste método parece estar relacionada à realização de um único recordatório para estimar o consumo habitual. Este fato foi superado, visto que foram realizados três recordatórios, sendo um deles relativo a um dia de final de semana, conforme preconizado.

               Apesar dos produtos alimentícios ricos em proteínas e gorduras de origem animal serem bastante consumidos e valorizados na cultura brasileira, como as carnes vermelhas e embutidos, algumas pessoas optam por não consumirem alimentos de origem animal. Este número é excessivamente pequeno na população ocidental, em particular em países em desenvolvimento como o Brasil, onde o consumo de produtos de origem animal vem crescendo continuamente com a renda, segundo estudo realizado pelo IBGE nos anos de 2002 e 2003 (IBGE, 2004).

               O ideal seria se este estudo contasse com um grupo de vegetarianos estritos maior que o encontrado para observação de possíveis diferenças no que se refere aos fatores de risco, porém os ovo-lacto-vegetarianos prevaleceram entre os VEG. Estes, por sua vez, consomem também proteínas e lipídios de origem animal proveniente de ovos, leite e derivados. Apesar disso, relataram menor quantidade destes nutrientes na sua dieta quando comparados aos onívoros.

               Apesar da preocupação de incluir pessoas de qualquer religião ou filosofia de vida, o maior número dos participantes VEGs deste estudo é de Adventistas do Sétimo Dia (ASD). A inclusão de um maior número de indivíduos desta religião poderia tornar-se um viés de seleção, visto que este grupo pode apresentar características particulares, principalmente no que diz respeito ao estilo de vida. Neste caso, a prevenção do confundimento poderia ser feita a partir do emprego da restrição ou do pareamento, ou seu controle durante a fase da análise.

               A partir desta questão, foi realizada uma análise segundo religião (ASD e não ASD) e não foi encontrada nenhuma diferença entre os dois grupos estudados. Isso permitiu excluir a hipótese de que a religião pudesse ser um fator de confundimento da associação entre a alimentação e risco para os agravos estudados.

[...]

               Em nosso estudo, foi possível observar que os percentuais de sobrepeso, obesidade central e hipercolesterolemia foram menores no grupo VEG, conferindo menor risco cardiovascular. Além desses, o grupo VEG apresentou menor excreção de sódio e consumo de lipídios e proteínas, apesar de não haver diferença entre os grupos quanto ao consumo energético e à quantidade de potássio avaliada na urina. Esses achados são similares aos do estudo realizado no Chile com vegetarianos e onívoros pareados por sexo, IMC e idade, onde não foram encontradas diferenças significativas nos grupos quanto à ingestão de energia, porém o percentual de lipídios foi maior entre os onívoros, bem como a quantidade de colesterol. Os vegetarianos deste estudo consumiram maior quantidade de fibras, vitamina C e Beta-caroteno e menor de vitamina B12.

               Embora o alto consumo de carne vermelha, rica em ferro e gordura saturada possa aumentar o risco de doença cardiovascular e alguns tipos de câncer, isto parece não se aplicar à carne branca e ao peixe. De fato, o mais importante efeito protetor da dieta vegetariana estrita parece ser o derivado do consumo de alimentos de origem vegetal não refinado e menor consumo de lipídios de origem animal. Por outro lado, a omissão da carne e do peixe pode aumentar o risco de deficiências nutricionais. Segundo estes mesmos autores, a dieta vegan (estritamente de origem vegetal), em particular, apresenta um enorme risco de deficiência de vitaminas B12 e B2 e de outros minerais, tais como cálcio, ferro e zinco. A dieta lacto-vegetariana apresenta algum risco de deficiência de vitamina B12 e, possivelmente, de ferro, visto que as melhores fontes e em quantidades adequadas para prevenir a anemia ferropriva estão presentes na carne vermelha e vísceras. Por outro lado, uma dieta vegetariana bem balanceada ou uma dieta onívora com quantidades moderadas de produtos de origem animal, substituindo parcialmente a carne vermelha por peixe, junto com consumo de grandes quantidades de produtos vegetais não refinados, parece ser mais protetora para a saúde que as dietas vegetarianas estritas.

               Neste estudo, não foi observado percentual elevado de anemia entre os VEG e os casos de anemia foram identificados nos dois grupos na mesma proporção, apesar dos valores médios do hematócrito e hemoglobina serem maiores no grupo ONI. Os casos de anemia identificados entre os VEG eram do sexo feminino e ovolacto-vegetarianos. É importante ressaltar que o consumo de suplementos entre os vegetarianos adventistas é maior e significativa a diferença, sendo o levedo de cerveja o mais consumido, além do consumo de ferro apresentar-se dentro das recomendações. Apesar do mais alto consumo de ferro entre os VEG, a absorção é comprovadamente mais baixa.

 [...]

               Em nosso estudo, foi encontrado um percentual maior de fumantes entre os onívoros, porém quando estes foram retirados da análise não foi encontrado resultado diferente do anterior, ressaltando que, neste grupo, o fato de ser tabagista não influiu nos resultados encontrados. Como os grupos são semelhantes nos outros aspectos, pode-se inferir que a alimentação é, provavelmente, um dos mais importantes fatores na determinação dos melhores resultados nos indicadores estudados entre os vegetarianos. Cabe ressaltar que, apesar de não estudado de forma aprofundada, o fato dos vegetarianos apresentarem condições mais favoráveis de emprego e ocupação pode favorecer outros aspectos de estilo de vida, como menor risco para o estresse e condições gerais de vida, apesar de não existir diferença na classe socioeconômica.

[...]

               Quanto à quantidade de energia ingerida, não houve diferença significativa, porém as dietas encontram-se mais desbalanceadas no grupo de onívoros. O percentual de proteínas e de lipídios é maior que o recomendado entre os onívoros, bem como é menor o percentual de carboidratos. A quantidade de fibras na dieta dos onívoros é praticamente nula quando comparada à recomendação (25 g), porém a de ferro é atendida nos dois grupos.

               As dietas vegetarianas parecem proporcionar melhores condições de saúde, não produzindo deficiências nutricionais importantes, além de prevenir as doenças crônicas, através de maior controle dos fatores de risco. O risco para o sobrepeso, hipercolesterolemia e obesidade central é significativamente menor nos vegetarianos. Além disso, apresentam padrão nutricional mais adequado e menor risco para os agravos crônicos, apesar de pequena diferença no padrão de atividade física regular entre os grupos estudados.

               Conclui-se que a alimentação "ocidentalizada", com excesso de proteínas e gorduras de origem animal, confere maior risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) quando comparada à alimentação vegetariana, em especial a hipertensão arterial, diabete, dislipidemia, aterosclerose e obesidade, sendo o vegetarianismo uma opção para prevenção e tratamento destes agravos.

Para referências e artigo na íntegra acesse: 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Vegetarianismo segundo CRN-3

               Quando é dito que a dieta vegetariana ou a vegana é errada normalmente tende a ser uma opinião mais pessoal ou de senso comum que de princípio científico. O Projeto "Ponto e Contra Ponto" discute temas polêmicos relacionados à nutrição, muitos assuntos ligados a esses sensos.  Seguem abaixo considerações do Conselho Regional de Nutricionistas da 3a. Região sobre o tema "Dietas Vegetarianas" publicadas em 20 de janeiro de 2012:

- os seres humanos são animais onívoros que podem consumir tanto os produtos de origem animal como vegetal. Por sua natureza biológica, o homem pode comer o que quiser. As vicissitudes ambientais, associadas à pulsão de vida vêm determinando as alterações evolutivas nos costumes alimentares;

- vegetariano é aquele que exclui de sua alimentação todos os tipos de carne, aves e peixes e seus derivados, podendo ou não utilizar laticínios ou ovos;

- a alimentação vegetariana é praticada, atualmente, por diversas razões - científicas, ambientais, religiosas, filosóficas, éticas. Estudos científicos demonstram que é possível atingir o equilíbrio e a adequação nutricional com dietas vegetarianas- ovolactovegetarianas, lactovegetarianas, ovovegetarianas e até veganas, desde que bem planejadas e, se necessário, suplementadas;

- a dieta vegetariana estrita (vegana) não apresenta fontes nutricionais de vitamina B12, que deve ser fornecida por meio de alimentos fortificados ou suplementos. Os elementos que exigem maior atenção na alimentação do ovolactovegetariano são: ferro, zinco e ômega-3. Na dieta vegetariana estrita deve haver atenção, além de vitamina B12, para cálcio e proteína;

                Diante destas considerações, o CRN-3 RECOMENDA aos nutricionistas para que estejam atentos ao seguinte:

1) Qualquer dieta mal planejada, vegetariana ou onívora, pode ser prejudicial à saúde, levando a deficiências nutricionais.

2) As dietas vegetarianas, quando atendem às necessidades nutricionais individuais, podem promover o crescimento, desenvolvimento e manutenção adequados e podem ser adotadas em qualquer ciclo de vida.

3) Indivíduos com distúrbios alimentares (anorexia nervosa, bulimia, ortorexia e outros), em algum momento da evolução da doença, estão sujeitos a adotar dietas restritivas de qualquer tipo, vegetarianas ou não e devem ser avaliados nesse contexto.

4) A adequação nutricional da dieta vegetariana estrita (vegana) é mais difícil de atingir e exige planejamento e orientação alimentar cuidadosos, incluindo suplementação específica.

                Ao nutricionista cabe orientar o planejamento alimentar dos indivíduos, visando à promoção da saúde, respeitando as individualidades e opções pessoais quanto ao tipo de dieta. Aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais da relação entre o indivíduo e os alimentos devem sempre ser considerados, no processo da atenção dietética.
 
CRN-3
 Colegiado 2011-2014

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Treinamento funcional

               No último ano, o setor de economia brasileiro cresceu em torno de 2,7% (segundo algumas referências do Globo.com) e, com esse aumento na economia, um dos setores que mais vem se destacando na área da saúde é o dos Spas, acompanhado da indústria do bem-estar, envolvendo desde cosméticos, até produtos direcionados à estética, clínicas de estética e por que não dizer academias de ginástica também? Só na Metrópole São Paulo, foram abertas cerca de 2445 empresas relacionadas a estética e isso mostra a possível ascendência das classes sociais, cada vez mais evoluindo de nível e obtendo novas possibilidades.
Acompanhada pouco a pouco neste crescimento, a necessidade da criação não somente de novos métodos, mas principalmente de novas formas de atrair o consumidor para esse mercado (principalmente quando há diferenciais mais significativos), tornou-se maior, visto a concorrência. E não é a toa que hoje esta necessidade é cada vez maior, em que cada esquina encontramos facilmente mais um ginásio novo com métodos e diferenciais novos.

               Diante disso um dos diferenciais que mais vem sendo trabalhados, e que na verdade já existe a muito tempo mas diariamente passa por modificações e alterações em sua configuração (não necessariamente os deixando piores ou melhores), é o chamado “treinamento funcional”. Mas, do que se trata exatamente o treinamento funcional? Força? Hipertrofia? Resistência? Apenas um treino? Semana sim, semana não? Um tipo de treinamento que necessariamente fuja a regra?

               Ao desmembrarmos o nome “treinamento” e “funcional”, pelo dicionário, os significados de palavras que mais se adaptam e/ou encaixam neste contexto são “ato de treinar, adestrar, acostumar” e “algo prático, que funcione”. Assim, podemos chegar a conclusão que este treinamento funcional (ou estes) são na verdade formas de realizar trabalhos de adaptação quebrados dia-a-dia e que funcionem de maneira prática. Logo, a praticidade não pode interferir no fato do trabalho ter de funcionar, por definição. E isso já nos leva a imaginar o que realmente pode ou não ser efetivo na busca de determinado resultado.

               O treinamento funcional não é algo atual, por incrível que pareça. Podemos imaginar que, instintivamente, nossos antepassados já realizavam métodos projetados e específicos que pudessem aumentar sua aptidão física para algum objetivo específico: Caçar, conseguir alimentos em locais de difícil acessibilidade, construir suas moradias, fugir de algum tipo de perigo eminente etc. Portanto, cada dia mais, apenas modificamos o que já existe.

entenda o que e treinamento funcional Entenda o que é treinamento funcional

               Voltando ao que é o treinamento funcional, propriamente dito, este é um trabalho onde se busca através de gestos específicos ou não movimentos que são utilizados em nosso dia-a-dia ou que fogem completamente do usual para de alguma forma otimizar nossas aptidões físicas (em especial as musculares), nossas aptidões de propiocepção e, principalmente, neuromotoras (além da busca em geral pela saúde). Sendo o corpo humano um projeto que funciona sinergicamente com cascata de reações que acontecem perfeitamente e mais externamente com uma sinergia mecânica extremamente complexa e muitas vezes até difícil de ser compreendida, este é controlado diretamente pelo sistema nervoso central que age concomitantemente e de maneira bastante eficaz tanto com as mínimas regiões e estruturas que compõe nosso corpo até com as mais externas estruturas, como os músculos esqueléticos. Assim, esses gestos que são ou não comuns ao nosso cotidiano (puxar, correr, agarrar, empurrar, torcer) são adicionados com técnicas e equipamentos (que envolvem desde elásticos a pesos, bolas, rolos, caneleiras, cordas) que possibilitam um aumento na dificuldade ou na funcionalidade dos mesmos, fazendo com que o corpo necessite cada vez mais se adaptar diante de novas situações.

               Difundido inicialmente nos Estados Unidos e hoje no mundo todo, não sabemos ao certo quais ou qual foi o primeiro indivíduo a propositalmente elaborar um ou mais sistemas de treinamento funcional, entretanto, sabemos que de alguma forma ele tem tomado proporções cada vez maiores dentro dos ginásios (proporção essa que muitas vezes até ultrapassa um pouco sua real funcionalidade, do termo “funcionar”, lembra?).

               As vantagens que o treinamento funcional apresentam vão além dos fatores unicamente trabalhados na musculação. Mas, espere! Não estou dizendo que a musculação seja um esporte incompleto, muito pelo contrário. Sessões de musculação bem feitas são extremamente completas e valem para todos os músculos. Entretanto, se podemos aperfeiçoar alguns destes que não são o enfoque principal da musculação, então ainda obteremos mais resultados e consequentemente um melhor desempenho da musculação em si, seja em quesitos de força, estabilidade, equilíbrio, melhora na respiração, melhora na coordenação motora, melhora da postura dentro e fora do exercício, formas de execução e também consciência corporal. Aliás, por falar justamente em consciência corporal, essa é uma das maiores vantagens que particularmente vejo no treinamento funcional: Ele nos faz conseguir enfocar conscientemente em algumas regiões do corpo com ou sem o uso de determinados equipamentos que naturalmente se quer sabemos que elas existem.

               Analogicamente, quando iniciamos na musculação, um dos grupamentos que mais demoramos para notar algum tipo de dor tardia pós-treino são os dorsais. Isso porque, apesar de utilizados constantemente, não são músculos que recebem uma atenção consciente nossa e tampouco ações relacionadas a contrações máximas. Com o desenvolver do tamanho dos mesmos (fibras musculares) e da propriocepção que começa a se criar com os mesmos após algum tempo de musculação, então não só passamos a observar algum tipo de dor pós-treino, mas implicitamente também trabalhá-los melhor durante a execução dos movimentos para tais.

               Vamos imaginar a seguinte situação: Se imagine em um banco de supino reto com um par de halteres, você deita no banco e executa 8 movimentos em boa forma sem grandes dificuldades. Agora, imagine exatamente a mesma situação, mas ao invés de você estar deitado em um banco plano de supino você se encontra em um banco com angulação de 45º, ou o que chamamos de supino inclinado e com a mesma carga. O movimento é facilitado ou dificultado? Pela biomecânica do exercício e pelo grau de isolamento no peitoral, ele será dificultado. Você ou realizará menos repetições, ou realizará repetições parcialmente completas ou terá de diminuir o peso. Agora, imaginemos uma terceira situação: Você, ao invés de realizar o supino em um banco, seja ele reto ou inclinado onde você tem todo um apoio e suporte focando no músculo específico alvo (apesar de simultaneamente estar trabalhando diversos outros músculos auxiliares e sinérgicos também), você está em uma bola daquelas de Pilates que toda academia tem. Será que você sequer conseguiria realizar o movimento com esta carga? Eu, particularmente duvido! Mas por que isso ocorre? Simplesmente porque causamos uma desestabilidade no corpo, forçando-o a trabalhar e ativar outros grupamentos musculares além do grupamento alvo principal. Isso faz com que mais energia seja desprendida para o controle, equilíbrio e força; faz com que você fique ainda menos relaxado e então, através dessa desestabilidade, é que começamos a obter certa estabilidade. Isso fará com que posteriormente isso possa ter algum tipo de aplicação no treino básico com pesos. [...] Claro que os benefícios não param por aí, pois muitas vezes esquecemos de até mesmo respirar corretamente quando trabalhamos com altas cargas na musculação clássica (tanto porque na maioria dos casos o que vemos são apenas apneias) e o corpo necessita de uma boa oxigenação nos tecidos para continuar com máxima eficiência no exercício físico. O treinamento funcional muitas vezes pode auxiliar neste processo favorecendo um pouco as condições cardiovasculares do atleta no treino clássico.

              Para quem deseja hipertrofia máxima, a regra é sempre dar preferência aos pesos básicos. A aplicabilidade do treinamento funcional também pode envolver a readaptação e/ou a recuperação de indivíduos e atletas que se encontram em estado de lesão. Muitas vezes esses atletas são impedidos de realizar determinado movimento ou até mesmo podem realizá-lo, mas sem gerar lá grande sobrecarga. [...]

             Não vejo o treinamento funcional como substituto da musculação para um indivíduo sadio, mas o vejo como um complemento que pode ser aliado em algumas épocas/fases, otimizando ainda mais os ganhos. Porém, cabe ao praticante da modalidade ao optar por um método ou por outro pesquisando a respeito e ouvindo a opinião dos mais diferenciados profissionais possíveis, fazendo com que o aval seja dado diante do que melhor lhe for encaixado e conveniente, respeitando os limites do corpo e as preferências pessoas. Muita atenção nesses métodos que são dia-a-dia lançados. A indústria do bem-estar na verdade pode ser uma faca de dois gumes e você certamente vai querer sempre o seu melhor, não é mesmo?

MARCELO SENDON RISDEN
CREF: 069448-G-SP
Originalmente publicado em "Dicas de Musculação" .

sábado, 18 de maio de 2013

Lesão muscular

LESÃO MUSCULAR NOS ATLETAS
Revista Brasileira de Ortopedia

Guilherme Campos Barroso,  Edilson Schwansee Thiele

RESUMO

               Este artigo tem por objetivo demonstrar a fisiologia, o diagnóstico e o tratamento das lesões musculares com foque nos atletas, suas demandas e expectativas. As lesões musculares estão entre as queixas mais comuns no atendimento ortopédico, ocorrendo tanto em atletas como em não atletas. Estas lesões caracterizam um desafio para os especialistas, haja vista a lenta recuperação que afasta o atleta dos treinamentos e competições, as frequentes sequelas e a recorrência das lesões. A maior parte das lesões musculares ocorre durante atividade desportiva, correspondendo de 10 a 55% de todas as lesões. Os músculos mais comumente afetados são os isquiotibiais, quadríceps e gastrocnêmios. Músculos estes biarticulares que estão mais sujeitos a forças de aceleração e desaceleração. O tratamento da lesão muscular varia desde o tratamento conservador até o tratamento cirúrgico. Novos procedimentos estão sendo utilizados, como a câmara hiperbárica e o uso de fatores de crescimento. No entanto, ainda é grande o número de recidivas de lesões. A lesão muscular continua sendo um tema com várias controvérsias. Novos tratamentos estão sendo pesquisados e desenvolvidos. A prevenção com fortalecimento muscular, o alongamento e o equilíbrio muscular continuam sendo o melhor "tratamento".

Descritores: Sistema Musculoesquelético/lesões; Ferimentos e Lesões; Atletas

INTRODUÇÃO

               As lesões musculares estão entre as queixas mais comuns no atendimento ortopédico, ocorrendo tanto em atletas como em não atletas. Estas lesões caracterizam um desafio para os especialistas, haja vista a lenta recuperação que afasta o atleta dos treinamentos e competições, as frequentes sequelas e a recorrência das lesões, apesar dos mais variados tratamentos. A maioria das lesões ocorre por alongamento excessivo ou trauma direto no ventre muscular. Aquecimento e alongamento ativo e passivo antes dos treinos têm sido postulados como estratégias de prevenção de lesões; no entanto, há pouca evidência sobre o quanto estas atitudes realmente diminuem a incidência das lesões musculares.

               Com o aumento no número de participantes em atividades desportivas, há o aumento do número de atendimentos relacionados a lesões musculares e cabe ao ortopedista estar ciente dos possíveis tratamentos, suas diferentes etapas e dificuldades. O objetivo deste trabalho é demonstrar a fisiologia, o diagnóstico e o tratamento das lesões musculares com enfoque nos atletas, suas demandas e expectativas.

ANATOMIA

               A porcentagem dos músculos esqueléticos no peso total do corpo varia de 40-50% no homem e de 25-35% na mulher. Alguns estudos demonstram o aumento desta porcentagem de acordo com a atividade realizada pelo atleta, chegando a 65,1% em halterofilistas. A função da musculatura é causar contração, convertendo energia química em mecânica, podendo ou não resultar em movimento articular.

               As fibras musculares podem ser dividas em dois tipos. Os músculos são compostos por 50% de fibras de contração lenta, tipo I, e por 50% de fibras de contração rápida, tipo II. Os músculos posturais apresentam uma maior quantidade de fibras do tipo I, que apresentam menor velocidade de contração, porém maior resistência à fadiga. As fibras do tipo II, rápida contração, podem ser subdivididas em IIA e IIB. As fibras IIA, também chamadas de intermediárias, apresentam maior quantidade de mitocôndrias e mioglobinas que a IIB, sendo por isso mais resistentes à fadiga.

              Apesar de os músculos apresentarem uma distribuição dos tipos de fibras, pode haver um rearranjo das fibras de acordo com o tipo de performance do atleta. As fibras do tipo II podem ser, através de treinamento, transformadas em fibras do tipo I. Já o inverso não é passível de ocorrer.

              Os músculos são capazes de efetuar diferentes tipos de contração. Contração isométrica, cuja força é gerada pelo músculo na mesma quantidade da resistência que se opõe, não gerando movimento e não havendo mudança no tamanho do músculo. Contração concêntrica, cuja força gerada pelo músculo é maior que a resistência, gerando encurtamento do músculo. Contração excêntrica, cuja resistência supera a força gerada pelo músculo, resultando em um alongamento do músculo. Os tipos de lesão dependem do tipo de movimento que está sendo realizado.

LESÕES

               A maior parte das lesões musculares ocorre durante atividade desportiva, correspondendo de 10 a 55% de todas as lesões. Os músculos mais comumente afetados são os isquiotibiais, quadríceps e gastrocnêmios, músculos estes biarticulares que estão mais sujeitos às forças de aceleração e desaceleração. Os isquiotibiais apresentam uma grande variação de incidência, podendo corresponder de 12 a 16% das lesões em esportes como futebol, rúgbi e atletismo. Vários sistemas de classificação têm sido propostos para as lesões musculares. Estas podem ser classificadas de acordo com o tempo, o tipo, a gravidade e o local da lesão.

               Quanto ao tempo, podem ser classificadas em aguda (menos de três semanas de evolução) ou crônica. Quanto ao tipo, elas podem ser classificadas em lesões causadas por fatores extrínsecos ou intrínsecos. Fatores extrínsecos agrupam as lesões que ocorrem por meio de um fator externo; as contusões são o melhor exemplo. Fatores intrínsecos agrupam as disfunções musculares, os estiramentos e as rupturas.

               As contusões musculares são causadas através do trauma de um objeto sobre o grupo muscular. Deve-se levar em consideração a biomecânica do trauma para avaliar as possíveis lesões. Por ser um trauma, tanto a pele quanto as camadas mais profundas até a musculatura poderão sofrer graus variados de lesões. Como exemplo das disfunções musculares temos as cãibras, a fadiga muscular e a síndrome compartimental. Lesões que não afetam, a princípio, a estrutura das fibras musculares. As cãibras são uma súbita contração involuntária da musculatura causando graus variáveis de dor. São várias as teorias que tentam explicar as causas desta alteração: desidratação, diminuição do sódio e/ou do potássio sérico, excitabilidade neuronal etc. A prevenção desta afecção com alongamentos, reforço muscular e correção do desequilíbrio muscular tem trazido bons resultados.

               O'Donoghue classificou as lesões quanto à sua gravidade em três tipos. Tipo I (estiramento) - afeta poucas fibras (< 5%); causada por alongamento excessivo das fibras musculares; causa dor à contração (contra a resistência) e ao alongamento passivo; apresenta edema pequeno e danos mínimos ao tecido, pequena hemorragia ou ausente e não há perda da função. Tipo II (ruptura parcial) - entre 5 e 50% do músculo afetado; causada, na maioria das vezes, por uma contração máxima (por falta de coordenação entre agonistas e antagonistas); tem por sintomatologia edema, dor que piora contra a resistência, hemorragia moderada e função limitada pela dor. Tipo III (ruptura total) - ruptura completa das fibras musculares; presença de defeito visível ou palpável; grande edema e hemorragia; perda completa da função.

FISIOLOGIA DA LESÃO

               As alterações biológicas que ocorrem na musculatura após uma lesão segue sempre um mesmo padrão, independente do tipo de lesão sofrida. Estas alterações podem ser didaticamente divididas em três etapas: destruição, reparo e remodelamento.

               A fase de destruição é caracterizada pela ruptura e necrose das fibras musculares, que se segue à formação de um hematoma entre os cotos musculares rompidos e a reação de células inflamatórias. A lesão muscular causada por uma contusão varia se há ou não contração muscular durante o trauma. Com o músculo relaxado, existe uma lesão de mais camadas musculares, uma vez que a força é transmitida até o osso pelas camadas musculares. Em um músculo contraído, a lesão é superficial, pois a energia é absorvida pela musculatura e não atravessa todas as camadas. Uma contusão normalmente afeta o ventre muscular; uma lesão tipo estiramento afeta normalmente a junção miotendínea.

               No mesmo momento em que há lesão das células musculares, há também ruptura de capilares que liberam células inflamatórias no local da lesão. Esta reação é amplificada pela liberação de citocinas e interleucinas originadas dos miócitos lesionados através de seus macrófagos e fibroblastos. Uma vez que a fase de destruição tenha diminuído, a reparação efetiva do músculo lesado inicia-se com dois processos concomitantes: a regeneração das fibras musculares interrompidas e a formação de uma cicatriz de tecido conjuntivo. Um conjunto de células indiferenciadas de reserva, chamado de células satélites, são alocadas por debaixo da lâmina basal de cada fibra muscular durante o desenvolvimento fetal. Em resposta a ferimento, estas primeiras células proliferam e, então, diferenciam-se em mioblastos.

               Tem sido demonstrado que a capacidade regenerativa do músculo esquelético em resposta à lesão é significativamente reduzida com a idade. Essa diminuição da capacidade, aparentemente, não é atribuível a uma diminuição do número ou atividade das células satélites, mas sim a uma redução geral na capacidade regenerativa do músculo envelhecido, como cada fase do processo de reparo parece abrandar e se deteriorar com a idade.

               Dentro do primeiro dia, as células inflamatórias, incluindo fagócitos, invadem o hematoma e começam a eliminar o hematoma. Fibrina derivados do sangue e fibronectina ligação transversal para formar tecido de granulação precoce, que age como um andaime e local de ancoragem dos invasores fibroblastos. A cicatriz de tecido conjuntivo produzida no local da lesão é o ponto mais fraco do músculo esquelético lesionado logo após o trauma, mas a sua tensão aumenta consideravelmente a força com a produção do colágeno tipo I. Aproximadamente 10 dias após o trauma, o amadurecimento da cicatriz atingiu o ponto em que já não é o elo mais fraco do músculo lesado, mas sim, se carregado até a falha, a ruptura ocorre geralmente dentro do tecido muscular adjacente a ligação recém-formada.

               Embora a grande maioria das lesões no músculo esquelético cure sem formação de cicatriz fibrosa funcionalmente incapacitante, a proliferação dos fibroblastos pode, às vezes, ser excessiva, resultando na formação de um tecido cicatricial denso dentro do músculo lesado. Em tais casos, geralmente associada a trauma muscular grave ou rerrupturas, a cicatriz pode criar uma barreira mecânica que atrasa consideravelmente ou mesmo restringe completamente a regeneração de fibras musculares do outro lado da lesão. A restauração do suprimento vascular à área lesada é o primeiro sinal de regeneração e um pré-requisito para a recuperação morfológica e funcional posterior dos músculos feridos.

[...]

COMPLICAÇÕES

               A maioria das complicações relacionadas à lesão muscular tem origem no hematoma da lesão, podendo este aumentar de tamanho e causar uma síndrome compartimental ou evoluir para um hematoma encapsulado.
Caso o paciente tenha alguma infecção em outro sítio, pode haver contaminação e supuração, havendo então indicação de drenagem cirúrgica. Pode haver ruptura ou afrouxamento da fáscia muscular, possibilitando o extravasamento de parte do ventre muscular pela abertura da fáscia, causando dor e alteração da função.

PREVENÇÃO

               Algumas atividades tidas como verdadeiras, tais como a redução de lesões com alongamentos antes e depois da atividade física, têm tido sua validade contestada em recentes estudos. O fortalecimento da musculatura dos adutores e da musculatura dos isquiotibiais ajudou a reduzir o número de lesões em atletas. A assimetria de força muscular é responsável por lesões musculares. Estudos que trabalharam o balanço muscular demonstraram uma diminuição no índice de novas lesões.

               Aquecimento ativo e passivo da musculatura antes do treinamento e da competição tem sido difundido como uma estratégia de prevenção de lesão; no entanto, há poucas evidências que demonstrem a redução de lesões musculares. O fortalecimento da musculatura isquiotibial demonstrou redução na incidência de lesões deste grupo muscular.

CONCLUSÃO

               A lesão muscular continua sendo um tema com várias controvérsias. Novos tratamentos estão sendo pesquisados e desenvolvidos. A prevenção com fortalecimento muscular, alongamento e equilíbrio muscular continua sendo o melhor "tratamento".

Para referências e artigo na íntegra acesse: 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Suplementos alimentares e acne


               Você que pratica musculação provavelmente você já tenha usado algum suplemento alimentar e notado o aparecimento de espinhas (acne). Seria perfeito se tais produtos, além de proporcionar o ganho de massa magra, contribuíssem também para uma pele impecável, entretanto, não é bem assim. Apesar de uma pequena parcela de privilegiados não desenvolver este problema, o fato é verdadeiro e pode variar de pessoa para pessoa. Há quem suspenda os suplementos na tentativa de minimizá-las e ainda assim precise conviver com as malditas. Confira abaixo a entrevista com o dermatologista Dr. Ademir Jr, membro da Sociedade Brasileira de Medicina Estética e entenda o porquê.

1 - Dr. Ademir, os suplementos alimentares podem favorecer o aparecimento de espinhas ou é mito?
               Se forem suplementos nutricionais, e apenas isto, poderão causar espinhas se tiverem em sua composição a vitamina B12. Esta é reconhecidamente causadora de casos de aumento da oleosidade e aparecimento de espinhas. Há suplementos (alguns pré-hormonais) que mesclam ingredientes como o tribulus terrestris. Nestes casos, este ativo também pode promover o aparecimento de acne.


2 - E qual é a ação da vitamina B12 em nosso organismo?
               O uso de vitamina B12 em suplementos nutricionais estimula a produção de sebo pelas glândulas sebáceas da pele, rosto, pescoço e tórax. Certa vez, em um congresso, apresentei um trabalho com pacientes que não tinham histórico de acne e nem propensão para o problema, mas que poderiam desenvolvê-la, quando utilizassem suplementos com B12. 

3 - Às vezes a pessoa acaba interrompendo a utilização do suplemento alimentar e ainda assim as espinhas teimam em aparecer. Por que isso ocorre?
               A própria atividade física em excesso (muitas horas por dia e exercícios muito pesados) pode influenciar os níveis hormonais do paciente e estimular o aparecimento de acnes.

4 - Tem alguma maneira de amenizar esta questão, algum produto que a pessoa possa tomar para conter o aparecimento das espinhas assim que começa a utilizar o suplemento?
               Sim. Produtos de uso tópico (géis, produtos de limpeza e controle da oleosidade etc) ou medicamentos por via oral podem ser utilizados. Outra possibilidade é o uso do Zinco e da Vitamina A.

5 - Após o aparecimento da Acne, o senhor recomenda qual tratamento?
               Aquele que se adequar ao tipo de acne do paciente. Há casos que são bem resolvidos com tratamentos tópicos: uso de géis, limpantes, ácidos derivados da vitamina A (ácido retinoico, adapaleno, isotretionoína) ou bactericidas como o peróxido de benzoíla, antibióticos (clindamicina e eritromicina). Nos mais severos, são extremamente recomendados medicamentos por via oral, como antibióticos e isotretinoína. Mas reforço que não existe regra. Dependerá do quadro do paciente e como o médico está acostumado a tratar o problema apresentado. Alguns pacientes têm melhores resultados com um tipo de medicamento do que com outro e isso deve ser levado em consideração.

Colaboraram com a matéria:

ADEMIR CARVALHO LEITE JUNIOR
Médico dermatologista especialista em tricologia (medicina capilar) pela Internacional Association of Trichologists
Membro da Sociedade Brasileira de Laser em Medicina e Cirurgia e da Sociedade Brasileira de Medicina Estética
 Professor de Anatomia e Fisiologia da pele na Pós-Graduação em Cosmetologia das Faculdades Oswaldo Cruz – SP
CRM: 92.693/SP

 Texto extraido do site "Club do Fitness".


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Supertreinamento



MONITORAMENTO E PREVENÇÃO DO SUPERTREINAMENTO EM ATLETAS
Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Rodrigo Nascimento Alves, Leonardo Oliveira Pena Costa e Dietmar Martin Samulski

RESUMO

               O supertreinamento é caracterizado pelo desequilíbrio entre estresse e recuperação. Além disso, os fatores de estresse podem ser encontrados não apenas em situações do treinamento e da competição, mas também naquelas relacionadas a extratreinamento e extracompetição. Por sua vez, os atletas na tentativa de alcançar altos níveis de desempenho com o treinamento podem tornar-se excessivamente treinados, exibindo sinais e sintomas do supertreinamento. Esses sintomas podem manifestar-se por queda no desempenho, fadiga crônica, infecções respiratórias e alterações do humor. Embora não exista indicação de que o supertreinamento cause danos irreversíveis ao atleta, o risco de lesão, doenças ou retirada prematura do esporte é aumentado, diminuindo sobremaneira as expectativas e a qualidade de vida dos atletas no esporte. Baseado nesses acometimentos, pretendeu-se estudar parâmetros e instrumentos, através de uma revisão bibliográfica, com possibilidade de monitoramento e prevenção nos âmbitos fisiológico e psicológico. Conclui-se que, para o monitoramento, a melhor estratégia é associar parâmetros psicológicos com avaliações fisiológicas. É preconizada a implantação de programa sistematizado de prevenção aos efeitos nocivos no desempenho, na saúde e, conseqüentemente, no bem-estar do atleta.

Palavras-chave: Treinamento excessivo. Estresse. Recuperação.

DEFINIÇÕES E PRINCÍPIOS DO SUPERTREINAMENTO

               Para Budgett, "a síndrome do supertreinamento é uma condição de fadiga e baixo rendimento, freqüentemente associado com quadros de infecções e depressões com o decorrer de treinamentos e competições intensas, em que os sintomas não cedem em duas semanas de repouso e não apresentam uma causa clínica identificável". Muitos pesquisadores denominam o fenômeno ou a síndrome do supertreinamento de diferentes formas: fadiga crônica ou persistente (overfatigue), estafa física (staleness), exaustão emocional (burnout), uso excessivo (overuse – termo utilizado também para lesões esportivas com característica microtraumática) e trabalho excessivo (overwork). Para outros, essa ausência de padronização terminológica causa confusão e dificuldade ao determinar as formas diagnósticas. Alves considerou todas as formas de apresentação acima citadas como processo causal ou sintomático; foi considerado como conseqüência, efeito ou resultado do processo o supertreinamento propriamente dito.

               Segundo Lehmann et al., o supertreinamento ocorre devido a um desequilíbrio entre estresse e recuperação, ou seja, grandes fatores estressantes combinados com pouca recuperação. Contudo, Lehmann et al. observam que as fontes de estresse podem ser encontradas não apenas em situações do treinamento e da competição, mas também naquelas advindas do extratreinamento e extracompetição. Assim, aspectos sociais, educacionais, ocupacionais, econômicos, nutricionais, viagens (sem a possibilidade de escolha pelo atleta) e monotonia atuam no aumento do risco de desenvolver o supertreinamento.

               Kreider et al. diferenciam o supertreinamento a curto prazo (overreaching) e a longo prazo (overtraining), observando suas distinções para compreensão da relação do treinamento esportivo e rendimento. O supertreinamento a curto prazo é descrito como sendo o decréscimo de desempenho atlético em um curto período de tempo, em que o rendimento normal pode retornar de poucos dias a duas semanas de recuperação. Nesse momento, ocorre a melhoria do desempenho através da supercompensação ou treinamento ideal. Já o supertreinamento a longo prazo é caracterizado por um decréscimo persistente do desempenho atlético, acompanhado geralmente (embora nem sempre) por alterações bioquímicas, fisiológicas e psicológicas, com tempo de reversão do estado ocorrendo de algumas semanas a meses de recuperação.

               Os atletas, na tentativa de alcançar altos níveis de desempenho com o treinamento podem ser levados ou se tornarem excessivamente treinados, e freqüentemente exibir sinais e sintomas do supertreinamento. Dentre esses sinais estão incluídos fadiga crônica, estagnação ou decréscimo no desempenho, infecções respiratórias e alterações no humor. Embora não exista indicação de que o supertreinamento cause danos irreversíveis ao atleta, o risco de lesão, doenças ou retirada prematura do esporte é aumentado. Para o controle desses fatores, o repouso ou treinamento reduzido dentro do programa de treinamento durante algumas semanas ou meses tornam-se necessários para uma completa recuperação física e mental do atleta.

[...]

INCIDÊNCIA DO SUPERTREINAMENTO EM ATLETAS

               A relevância na compreensão dessa situação foi recentemente demonstrada por Gould et al. na Olimpíada de Atlanta, 1996. Investigações realizadas entre 296 atletas de 30 diferentes esportes mostraram que 84 deles (28%) estiveram em um estado de supertreinamento e que este explicava a queda de seus desempenhos. Em estudos realizados nas Olimpíadas de Inverno – Nagano, 1998, Gould et al. observaram que oito dos 83 atletas olímpicos americanos (quase 10%), de 13 diferentes esportes, reportaram que estiveram com supertreinamento e que isto os levou a um baixo desempenho. Os mesmos atletas consideraram também outros fatores contribuintes para o supertreinamento, como as viagens excessivas, diminuição de períodos de repouso, diminuição do tempo necessário para recuperação e um estilo de vida "pouco saudável".

               Segundo outros pesquisadores, a incidência quanto aos sinais e sintomas de supertreinamento pode variar entre 7 e 20%. Anos depois, pesquisas realizadas com atletas de endurance (esportes predominantemente aeróbicos), especialmente nadadores, observaram resultados semelhantes (7% a 21%), sendo que 10% apresentavam sintomas graves. A incidência do supertreinamento no esporte varia de acordo com a modalidade. Esportes que envolvem grandes cargas de treinamento freqüentemente demonstram maior número de resultados negativos, como as modalidades de corridas, natação, ciclismo e remo.

               Embora mais freqüentemente seja notado em atletas de elite, o supertreinamento é também um problema em outros níveis de participação. Por exemplo, Raglin e Wilson sugeriram que jovens atletas acometidos pelo supertreinamento, resultante da carga física, e com resultados negativos no treinamento, são particularmente submetidos a carga de treinamento comparável à dos atletas adultos e de elite. Um estudo intercultural e bem-controlado, utilizando testes físicos, psicológicos e registro da carga de treinamento, mostrou que, de 231 jovens nadadores, com média de idade de 14,8 anos, 35% (81) apresentaram estafa física (staleness), concluindo que a freqüência de jovens atletas foi similar à encontrada entre os atletas adultos e de endurance. Esses achados são exemplos de como os atletas são diretamente influenciados pela prática do treinamento excessivo e recuperação deficiente, demonstrando a importância de um melhor entendimento desse fenômeno para favorecimento da qualidade de vida destes.

MONITORAMENTO DO SUPERTREINAMENTO

              Embora haja uma nítida escassez de estudos bem controlados nos quais se relatam critérios para o diagnóstico, a queda do desempenho atlético, juntamente com a fadiga crônica, é evidente indicador da síndrome do supertreinamento e tem sido usado para diagnose da síndrome. Entretanto, pouco tem sido feito para quantificar estes fatores e há pouco consenso de quanto do rendimento deva estar deteriorado antes de o supertreinamento ser diagnosticado. Segundo Hooper et al., os decréscimos do desempenho, principalmente aqueles associados a um fator desconhecido e que são claramente um resultado do supertreinamento, variam de 0,7 a 15% do rendimento. Vários investigadores têm sugerido que a estagnação no rendimento é suficiente para indicar o supertreinamento quando considerados em conjunto com outros sinais e sintomas. Uma vez que o desempenho esteja deteriorado e a fadiga se tornado cronicamente alta, é freqüentemente tarde para evitar a síndrome do supertreinamento.

               O uso somente de sinais e sintomas subjetivos, tais como sono insuficiente e dor muscular, dificulta o diagnóstico, pois os mesmos não são demonstrados em todos os indivíduos, além de poderem também aparecer como resultado de outras doenças. Pesquisadores de diferentes áreas do esporte e da saúde vêm tentando buscar soluções diagnósticas a respeito do supertreinamento, sejam eles médicos, psicólogos, preparadores físicos e fisioterapeutas. Dentre os critérios discutidos, podemos salientar: (1) história da saúde do atleta; (2) reconhecimento dos marcadores e atenção ao identificá-los o mais brevemente possível; (3) análise de variáveis fisiológicas e (4) utilização de medidas psicológicas para acompanhamento das percepções e emoções dos atletas.

               Baseado nesse contexto interdisciplinar na identificação da síndrome, um grande número de sinais e sintomas está associado ao supertreinamento, devendo ser cuidadosamente acompanhado e monitorado o mais atentamente possível pela equipe. Fry et al. agruparam essa variedade de sintomas em quatro categorias: (1)Fisiológicos; (2)Psicológicos; (3)Neuroendócrinos ou bioquímicos; e (4)Imunológicos. Contudo, baseadas nas diferentes combinações de manifestações nos atletas, outras categorias foram associadas: (5) Parâmetros de desempenho e (6) Processamento de informação.


[...]

RECOMENDAÇÕES PARA PREVENÇÃO DO SUPERTREINAMENTO


               Considerando as alterações relacionadas ao supertreinamento, não é errôneo questionar os meios que poderiam identificar tal fenômeno. Entretanto, uma situação parece clara, a prevenção dificilmente ocorrerá utilizando os conceitos de uma única ciência ou marcador, principalmente pelo fato de que as alterações metabólicas e orgânicas estão associadas com diversos sistemas corporais.

               Diminuição do desempenho prolongado, lesão, doença, retirada prematura do esporte e comprometimento da qualidade de vida do atleta são efeitos nocivos prováveis na ocorrência do supertreinamento e, neste caso, a prevenção torna-se a meta principal. A seguir, são apresentadas recomendações para prevenir supertreinamento em atletas:

 Considerar que os atletas têm diferentes níveis de aptidão e tolerância à carga de treinamento;
 Monitorar o desempenho mediante registro dos treinamentos e competições. Atletas e treinadores devem registrar a freqüência, a duração e a intensidade do treinamento juntamente com os períodos de repouso entre as sessões;
 Aumentar a carga de treinamento de forma progressiva, utilizando para isso a periodização no estabelecimento dos exercícios. Não aumentar a carga de treinamento semanal por mais de 10%;
 Propiciar as modificações da carga de treinamento, com reduções do volume, alterações da intensidade e evitando a monotonia nos treinamentos, priorizando os períodos de recuperação;
 Integrar sessões de treinamento mental e relaxamento no treino diário com intuito de recuperar energia e reforçar a concentração mental nos treinos;
 Estabelecer metas realistas e atrativas para o treinamento e competição, incentivando o alcance destes objetivos e criando um processo retro-alimentar para aumentar a motivação;
 Evitar competições em excesso, fazendo uma programação anual adequada;
 Incentivar o desenvolvimento das capacidades psicológicas, fisiológicas e sociais mediante a manutenção de uma boa saúde e condição física, com controle dos fatores de estresse e dieta e treinamento equilibrados;
 Manter uma dieta equilibrada, com larga variedade de nutrientes e que contenha, sobretudo, carboidratos, proteínas e eletrólitos. Pode ser necessário o uso de vitaminas e eletrólitos caso a dieta for deficiente;
 Controlar os estressores psicológicos de origem externa ao treinamento físico, tais como: pressões familiares e no trabalho, excesso ou viagens muito longas, pressão de patrocinadores e do clube entre outros eventos do cotidiano. Se os estressores pessoais externos se tornarem altos ou se o controle destes for deficiente, recomenda-se que haja uma redução da carga de treinamento;
 Utilizar os processos de recuperação ativa e passiva, associando períodos de repouso absoluto com a utilização de pequenos jogos, viagens prazerosas, utilização de outras modalidades como recreação (por exemplo, nadadores poderiam jogar futebol) e corridas regenerativas.

CONCLUSÃO


               Um programa de monitoramento para o supertreinamento pode ser considerado parte integral no gerenciamento da qualidade de vida e na manutenção do status profissional dos atletas durante suas carreiras. Entretanto, os métodos mais apropriados para tal programa são ainda discutidos. Testes fisiológicos compreensivos não têm sido mostrados ser mais eficientes do que testes psicológicos, com maior facilidade de procedimento e com menores custos, como, por exemplo, POMS, QER-D e registro de cargas diárias de treinamento. Por outro lado, mecanismos fisiológicos podem mediar respostas psicológicas no supertreinamento, sugerindo para o monitoramento a associação de parâmetros psicológicos em conjunto com avaliações fisiológicas, bioquímicas e/ou imunológicas. Desta forma, baseado na complexidade e na dificuldade de detecção do supertreinamento no esporte, conclui-se que a melhor ação de treinadores e profissionais relacionados ao esporte, como médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos, é a implantação de um programa sistematizado de prevenção aos efeitos nocivos no desempenho, na saúde e conseqüentemente no bem-estar do atleta.

Para referências e artigo na íntegra acesse: